Projeto de Hoje

BRASIL - MOÇAMBIQUE - ANGOLA - PORTUGAL
 
Espetáculo Teatral 
"Netos de Gungunhana"
baseado na obra de Mia Couto
Com direção de João Brites, um co-produção Teatro O Bando, Teatro do Instante e Fundação Fernando Leite Couto 
Lisboa - Portugal (de 9 de Setembro a 18 de Novembro de 2018)
Brasília - Brasil (13 de Janeiro a 28 de Fevereiro 2019)
Maputo - Moçambique ( 01 a 15 de Março de 2019)
INQUIETAÇÕES
O espetáculo “Inquietações” apresenta o encontro de dois casais, um real e outro ficcional. Em meio a uma conversa banal e uma briga cotidiana, a dupla real se depara com o casal da novela que também, em meio a uma discussão, os faz refletir sobre sua própria relação. “O casal da vida real passa a encenar uma espécie de novela e o par televisivo apresenta uma vivência muito próxima de uma realidade mais comum”, explica o diretor da obra.

A peça leva ao público humor e drama. Discute limites entre acontecimentos da realidade e ficção com apresentações em bibliotecas públicas do Distrito Federal. A montagem, com direção de Marcelo Pelucio, tem sessões gratuitas nos dias 22, 23 e 24 de abril, na Biblioteca do Itapoã e em 9 e 10 de maio na Biblioteca de Águas Claras.

“Inquietações” tem como eixo o debate sobre questões como a construção de identidades e limites territoriais e foi de importância fundamental para resultado final da peça. A dramaturgia do espetáculo foi desenvolvida em processo coletivo pelo elenco.

Nas referências para o roteiro do espetáculo, estão elementos das literaturas portuguesa e brasileira, além de pitadas da cultura popular do Brasil, como a TV e o rádio. O diretor conta que entra em cena também o narrador e o caráter lírico como questionamentos sobre quem escreve histórias do imaginário brasileiro. “A vontade é levar ao público um questionamento sobre nossas raízes culturais e identitárias que proponha uma indagação potencialmente inesgotável: o que nos torna brasileiros?”, entrega Pelucio.

FICHA TÉCNICA
Texto: Grupo
Direção de cena: Marcelo Pelucio
Elenco: Bárbara Gontijo, Diego Borgess, Lupe Leal, Marcelo Nenevê, Tathyana Lopes
Cenografia: Marcelo Nenevê
Figurino: Marcelo Nenevê
Designer gráfico: Claudio Canarim
Videomaker: Thiago Barreto
Fotos de divulgação: Michael Melo
Produção executiva e gestão financeira: Elisa Mattos (Desvio Produções Culturais)
Assistência de produção: Natália Botelho (Desvio Produções Culturais)
Assessoria de Imprensa: Lambada Comunicação

Encontre todas as Informações no Site do Teatro São Luiz:

http://www.teatrosaoluiz.pt/espetaculo/netos-de-gungunhana/

CRIAÇÃO Teatro O Bando TEXTO Mia Couto DRAMATURGIA Miguel Jesus ENCENAÇÃO E CENOGRAFIA João Brites MÚSICA Jorge Salgueiro CORPORALIDADE Giselle Rodrigues FIGURINOS Clara Bento DESENHO DE LUZ Guilherme Noronha INTERPRETAÇÃO Alice Stefânia, Bruno Huca, Diego Borges, Fernando Santana, Raul Atalaia, Rita Couto, Sufaida Moyane, Suzana Branco e Té Macedo GRUPOS PARCEIROS Fundação Fernando Leite Couto, Teatro do Instante APOIO Instituto Camões, FUNDAC – Moçambique e UNDANDY COPRODUÇÃO Teatro O Bando e São Luiz Teatro Municipal

O que é o Projeto?


NETOS DE GUNGUNHANA, a partir de Mia Couto
Encenação de João Brites, Teatro O Bando - co-criação Teatro Do Instante e Fundação Fernando Leite Couto

A nova criação do Teatro O Bando é uma colaboração entre artistas portugueses, brasileiros e moçambicanos, baseada na trilogia de Mia Couto As Areias do Imperador. Netos de Gungunhana reflete sobre as pequenas teias de poder presentes na mais pequena forma de sociedade, a família, que de modo progressivo se vão estendendo às tribos, cidades, países e federações. Este espetáculo constrói-se a partir da figura de Gungunhana, o último imperador moçambicano que, para alguns, foi um herói e um salvador e, para outros, um ditador e um pesadelo, assumindo-se em palco a realidade como um conjunto de diferentes pontos de vista. Questionam-se, assim, os colonialismos, os históricos e os de todos os dias, as manipulações domésticas e os líderes de fachada e também as manobras de um poder manietado na sombra, à vista de todos. Netos de Gungunhana é um projeto que ultrapassa fronteiras. Fronteiras do tempo e do espaço. Fronteiras do olhar. 

Criação Teatro O Bando; Texto: Mia Couto; Dramaturgia: Miguel Jesus; Encenação e Cenografia: João Brites; Música: Jorge Salgueiro; Corporalidade: Giselle Rodrigues; Figurinos: Clara Bento; Desenho de luz: Guilherme Noronha; Interpretação: Alice Stefânia, Bruno Huca, Diego Borges, Fernando Santana, Raul Atalaia, Rita Couto, Sufaida Moyane, Suzana Branco e Té Macedo; Grupos parceiros: Fundação Fernando Leite Couto, Teatro do Instante; Apoio: Instituto Camões e FUNDAC - Moçambique

Sobre o espetáculo 

Quando nos reunimos no Teatro O Bando, em fevereiro de 2015, pela primeira vez para falar sobre o projeto, pensei: "não faço ideia onde vou estar daqui a três anos". E outra vez estou com o Bando, numa relação, entre idas e vindas, que já duram onze anos. Dessa vez a aventura é inspirada pela trilogia "As Areias do Imperador" de Mia Couto, onde juntamos em um mesmo palco artistas brasileiros, moçambicanos, angolanos e portugueses. Fazer um projeto desse porte é sem duvida um privilégio e um grande desafio. É a oportunidade que temos de partilhar diferentes pontos de vista sobre a trilogia de Mia, que narra, através de um olhar romantizado, a colonização portuguesa em Moçambique.  Para nós Brasileiros, o fator histórico sobre o conflito entre o império Português e o Rei de Gaza, é um tanto quando desconhecido, porém nos reconhecemos em vários aspectos que nos tocam enquanto país colonizado, abarcando todas as dores e consequências da palavra: colonização. Como legado comum, dentro outros, temos a nossa língua Portuguesa, que talvez seja o ponto de partida deste trabalho. Como falantes de uma mesma língua possuem características tão particulares que por vezes tornam-se incompreensíveis entre si? São as várias línguas de uma mesma língua, as particularidades dos sotaques e variações de cada região ou povoado que criam identidades singulares. Falar com um sotaque acentuado de uma região diferente de onde vivo é um desafio, pois muitas vezes nos vemos numa aproximação que pode beirar o deboche, o que não queremos. Buscamos nos expressar e pensar nesse sotaque, assim como quando pensamos em outra língua. Outro fator de muitos debates entre atores e diretores foi a representatividade feminina e negra dentro do espetáculo. Ao optarmos por inverter os papéis, entre brancos e negros, eu procuro pensar que estamos de alguma maneira refletindo o trecho onde Mia diz: "Ngungunyane terá netos brancos portugueses e os portugueses terão netos africanos. Contrariar essa inclinação é travar o vento com uma peneira". A confiança que temos nos diretores e equipe do Bando nos deu margem para nos lançarmos nesta proposta. Para finalizar, ressalto nesse projeto a engenharia minuciosa de João Brites, a precisão da Giselle Rodrigues, a maestria de Jorge Salgueiro e a entrega e dedicação das atrizes, atores e toda a equipa envolvida nesse espetáculo. O projeto prevê apresentações no Brasil e Moçambique onde cada diretor local poderá remodelar o espetáculo a sua maneira, preservando assim os diferentes pontos de vista sobre esta marcante história. Poder partilhar um processo criativo com pessoas de quatro países de três diferentes continentes, neste momento sócio-politico que vivemos, é por si só um grande acontecimento. 

Estreia Hoje dia 25 de novembro de 2018

 

Hoje estreamos o espetáculo “Netos de Gungunhana” baseado na obra de Mia Couto e nessa versão dirigido por João Brites e produzido pelo Teatro O Bando em cocriação com o Teatro Do Instante e os artistas Moçambicanos ligados à Fundação Fernando Couto, alem da participação de uma atriz/cantora lírica de Angola e uma atriz/conferencista representando Cabo Verde. São muitos países juntos, uma mesma língua. Todos juntos a tentar transformar um pouquinho o mundo através do teatro. ❤️ 

 

Residência Artística
Desmontando o tempo / Rastro
Com Direção de Francis Wilker (Teatro Do Concreto)
FORTALEZA - CE
Atuação: Diego Borges
Direção: Francis Wilker
Colaboração Artística: David Alencar, Jander Alcântara, Renato Coelho e João Dias Turchi
Coordenação do Projeto: Andrei Bessa 

Diário de Bordo

Começamos no dia 05 de fevereiro de 2018, o processo para a construção de um espetáculo solo, com direção de Francis Wilker e parcerias entre os  grupos Teatro do Concreto e o Teatro do Instante. Com apoio da Escola Porto Iracema das Artes e da Universidade Federal do Ceará - UFC. Acompanhe aqui nosso dia a dia de criação.

Rastro: o que temos para dizer sobre esse tempo?

Fim de tarde do dia 06 de março de 2018, Escola Porto Iracema das Artes, Fortaleza - Ceará - Brasil. Este dia marca o início do espetáculo que está surgindo da parceria entre os grupos Teatro do Concreto e Teatro do Instante. Foram 17 dias de sala de ensaio, quase 70 horas de dedicação, pesquisa, treinamento e criação para chegar na estrutura que presentificamos neste dia. Para nossa surpresa a sala do Porto Iracema, a mesma sala de ensaios desses dias, estava lotada. Quase quarenta pessoas vieram assistir nossa abertura de processo. A apresentação que nos ensaios, sem publico, durava cerca de 35 minutos, com o publico teve a duração de 45 minutos! Uma prova que o tempo do espetáculo depende do tempo do público! Mais uma vez o tempo é relativo. Tudo correu bem, até melhor do que eu esperava. A presença daquelas pessoas, após tantos dias na "solidão da sala de ensaios", realmente fez com que algo novo brotasse naquele espaço. No final da apresentação fizemos uma roda de conversa e nos surpreendemos com os comentários das pessoas. O feedback foi bem positivo, saímos satisfeitos e confiantes que estamos no caminho certo para a construção de um espetáculo poético e contundente. Acreditamos que ainda temos que amarrar melhor a dramaturgia, alguns pontos foram levantados pelo público. Também precisamos de mais uma cena que de o fechamento em ideias que são levantadas e que não retornam. Enfim, ainda temos um bastante trabalho pela frente. 

O Porto Iracema filmou o espetáculo e fotografou. Segue o Teaser da apresentação.

17° Dia - Último Dia antes do começo de tudo.

Amanhã faremos a apresentação para o público. Confesso que devido a correria desses últimos dias não pude escrever mais detalhadamente. Temos uma convicção, precisamos ser políticos! Precisamos falar do nosso tempo! Estamos atravessando um momento histórico e catastrófico e não podemos ficar calados.

Encontramos outro poema que pode refletir sobre o processo:

Apague os Rastros

Bertold Brecht | In. Cartilha para os citadinos

 

 

Separe-se de seus amigos na estação

De manhã vá à cidade com o casaco abotoado

Procure alojamento, e quando seu camarada bater:

Não, oh, não abra a porta

Mas sim

Apague os rastros!

 

Se encontrar seus pais na cidade de Hamburgo ou em outro lugar

Passe por eles como um estranho, vire na esquina, não os reconheça

Abaixe sobre o rosto o chapéu que eles lhe deram

Não, oh, não mostre seu rosto

Mas sim

Apague os rastros!

 

Coma a carne que aí está. Não poupe.

Entre em qualquer casa quando chover, sente em qualquer cadeira

Mas não permaneça sentado. E não esqueça seu chapéu.

Estou lhe dizendo:

Apague os rastros!

 

O que você disser, não diga duas vezes.

Encontrando o seu pensamento em outra pessoa: negue-o.

Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retrato

Quem não estava presente, quem nada falou

Como poderão apanhá-lo?

Apague os rastros!

 

Cuide, quando pensar em morrer

Para que não haja sepultura revelando onde jaz

Com uma clara inscrição a lhe denunciar

E o ano de sua morte a lhe entregar

Mais uma vez:

Apague os rastros!

 

(Assim me foi ensinado.)

16° Dia - Esquecer para lembrar

Hoje dia 02/03. 

Francis enquanto assistia a passagem da estrutura lembrou-se de um poema, e assim que chegou em casa me enviou:

O PASSADO ANDA ATRÁS DE NÓS

 

O passado anda atrás de nós

como os detetives os cobradores os ladrões

o futuro anda na frente

como as crianças os guias de montanha

os maratonistas melhores

do que nós

salvo engano o futuro não se imprime

como o passado nas pedras nos móveis no rosto

das pessoas que conhecemos

o passado ao contrário dos gatos

não se limpa a si mesmo

aos cães domesticados se ensina

a andar sempre atrás do dono

mas os cães o passado só aparentemente nos pertencem

pense em como do lodo primeiro surgiu esta poltrona este livro

este besouro este vulcão este despenhadeiro

à frente de nós à frente deles

corre o cão

Ana Martins Marques - Livro das Semelhanças

Este poema fala muito sobre o que estamos criando, tanto que o utilizamos para compor o programa que será entregue ao público como uma espécie de sinopse do que será apresentado.

Falta pouco.

14°, 15° - Reta final

 

Nos três dias antes da apresentação me dediquei a repetir a estrutura e memorizar o texto final. Fiz uma passagem do todo para o diretor que aproveitou para fazer alterações. Um dia antes da apresentação Francis mudou o final, antes eu terminava a oração -Papa Don Ba La - e perguntava para o publico: Devemos continuar?. E depois saia sozinho. A nova proposta foi, enquanto canto a oração convido o publico a irem para o palco, faço uma espécie de benção de cada um que está ali e então finalizo estalando os dedos e repetindo a pergunta: Devemos continuar? De diferentes maneiras enquanto recolho meus pertences e saio.

Tivemos ainda a visita do Bailarino e Coreógrafo Leandro Netto, que trabalhou comigo a cena da dança coma cadeira. Leandro viu o que tínhamos feito e então propôs uma mudança que fez com que a cena ganhasse outros sentidos ainda mais interessantes. Trabalhamos do peso a leveza. Iniciava a relação com a cadeira com muita dificuldade, como se eu não conseguisse tirar a cadeira do lugar, aos poucos como em uma batalha, ou sexo selvagem, a cadeira ia sendo dominada até se tornar a coisa mais leve do mundo. Também trabalhou comigo quedas onde as torções dos cotovelos e joelhos me faziam cair enquanto empurrava ou puxava a cadeira. Quando mostramos para o diretor o resultado ele gostou muito, porém propôs uma inversão ao invés de irmos do pesado ao leve faríamos o contrário. A imagem que ficou dessa cena é a de um menino brincando no quintal, ele cria figuras e dança com a cadeira, numa mistura de luta e descoberta das possibilidades daquele objeto. Francis também me pediu para retomar o corpo do macaco, que havia aparecido em uma das improvisações. Então em determinado momento eu me relacionava na descoberta da cadeira com um olhar e corpo de primata.

Chegamos ao esboço do que iríamos apresentar, sempre lembrando que ainda é somente um ensaio aberto. Não temos a pretensão de ser espetáculo ainda.

13° Dia - Eu me reconheço nisso

 

Hoje foi dia de definir o figurino que irei usar na apresentação. O figurino é importante pois além de contribuir para o significado do espetáculo, dentro de algum contexto, ele também faz parte das ações do ator e pode facilitar ou delimitar certos movimentos. Queríamos uma roupa que fosse um tanto quanto atemporal, que não datasse o personagem. Após alguns testes escolhemos uma calça vinho, uma camisa de manga cinza, uma botinha marrom, uma cueca preta sem estampas e uma mochila de couro. Ainda temos que comprar a botinha e a mochila será emprestada de um dos colaboradores, até que compremos outra. Definido isso, recebemos na sala a fotógrafa que iria fazer as fotos para a divulgação do nosso trabalho na próxima terça-feira. Francis então escolheu algumas imagens que achava que poderiam ser interessantes para o público. Eu ia então executando cada fragmento de cena para a foto. "Diego, você precisa estar no estado certo desses momentos, pois isso se vê na fotografia" disse o diretor sabendo que eu não estava fazendo como deveria. Escolhemos imagens chaves do trabalho: a queda da cadeira, a escrita do texto pelo corpo velho na parede, o leite caindo da boca e eu como boneco (seguem as fotos logo à baixo) Após as fotos passamos para o ensaio:

A ideia agora é começar aprofundar os materiais que temos. Hoje Francis marcou duas cenas, a do início onde eu escrevo com giz nas paredes e a do final onde eu apago o giz das paredes e finalizo o espetáculo (spoiler).

No início, pergunto as horas para alguém da plateia e escrevo o local (Fortaleza) e as horas exatas. Em seguida Alencar começa a dizer outros horários de outras cidades. E então definimos as cidades que seriam escritas de forma legível na parede são elas:

Fortaleza -

Jerusalem -

Luanda -

Hiroshima -

Porto Príncipe - 

Brasília - 

A ideia é que a narração vai se intensificando e eu com muito esforço corro de um lado para o outro para escrever todas as cidades e horários possíveis. A parede então fica com muitas marcas de horas espalhadas. Destancam-se as seguintes ações em ordem:

escrever na parede - andar - correr - correr mais rápido - empurrar a parede - cair no chão - escrever no chão - escrever em mim - escrever no alto da parede - escrever no rodapé - acabar de joelhos com a testa na parede  (redenção). Em seguida olho para o público e digo: "o que quero dizer está aqui"

Me levanto segurando nas paredes, detenho uma das mãos na parede e fico com o corpo na diagonal olhando para o público e digo: "...na fresta desse chão, no fio amarelo pendurado no teto"

Começo a andar lentamente em direção ao público enquanto continuo descrevendo o que vejo. Francis disse que esse texto pode ser improvisado porém quer que eu descreva quatro tipo de coisas: no espaço, nas pessoas, em mim e lá fora (Ex: a porta, sua pinta no rosto, minha respiração, o som dos carros lá fora).

Francis me pediu para ser o mais simples possível, estar desarmado, entregue, e encontrar pequenas emoções a partir das coisas que vejo. "É como se você não acreditasse que tudo que você precisa está ali diante de você, como se você descobrisse cada detalhe" disse o diretor. Passamos mais de uma vez, tentando encontrar o tom exato da fala, e descobrir cada surgimento dos detalhes. Toda vez que falamos de detalhes me lembro de Thomas Richards lá no Master Course que fiz em Pontedera na Itália dizer: "uma cena é feita de detalhes".

Passamos para a última cena do espetáculo. 

Francis me pediu para iniciar a cena como havia feito da última vez. Comecei e ele não me pediu para parar, porém foi dizendo como deveria agir. "Não precisa intensificar, esse é um momento de pajelança" disse o diretor. "Pode fazer exatamente como tem feito, o acariciar as paredes, é como uma dança, é quase um TaiChi com a parede" disse Francis. No final quando me encosto na parede e digo as ultimas frases passamos mais tempo. Eu de fato não estava encontrando um tom adequado, até o diretor me pedir para fechar os olhos e imaginar um novo tempo e lugar diante dos meus olhos para então dizer ao publico: "Neste lugar, no dia de hoje, se inicia uma nova época na história do mundo e nós podemos dizer que assistimos à sua origem" (texto do Borges). No final o diretor disse que estava melhor porem ainda poderia trabalhar mais nisso. E completou, "você quando parte para a ação física tudo flui, porém quando é preciso usar palavra precisa melhorar". Finalizamos com algumas discussões, e no final Francis disse: "eu me reconheço nesse trabalho, fico feliz por isso".

Resumo do dia

Foi um dia proveitoso. Definimos figurino e duas cenas importantes estão mais desenhadas. Amanhã vamos ter ensaio logo pela manhã, e o diretor quer que eu passe toda a estrutura sem interrupções para ele ver. Estamos na reta final, restam poucos ensaios. Agora é hora de se concentrar ainda mais no trabalho dentro e fora das salas de ensaio. Até já**

1/1

12° Dia - Rastro

 

Segunda-feira dia 26/02. Hoje foi dia de definir o nome do trabalho que será apresentado na próxima terça-feria dia 06/03. Sabemos que vamos apresentar um trabalho em processo, ou seja, ainda não está acabado e a abertura do processo para o público nos serve justamente para saber para onde ir a partir dos comentários suscitados pelo bate papo após a apresentação. Eu e Francis então fizemos uma lista de nomes que nos vieram a cabeça. Fizemos uma lista sem pensar, com o que viesse em nossas cabeças para depois reler e escolher o que mais nos agradasse. Não foi possível, gostamos de alguns, mas não tínhamos certeza. Francis então pediu ajuda a nosso novo colaborador João Dias Turchi, dramaturgo que atualmente reside em São Paulo.  Mandamos a lista para João e a resposta dele foi a mesma que pensamos. O trabalho por enquanto vai se chamar: "Rastro".

Depois, a pedido do diretor, transcrevi o roteiro final para enviar para nosso colaborador João Dias Turchi, que irá nos ajudar com a parte textual (falas). Após enviar o roteiro a João fui para a Escola Porto Iracema das Artes ensaiar sem a presença dos outros colaboradores. Hoje, não demorei muito pois estava com o corpo cansado e ainda precisava resolver coisas de produção. Então passei o roteiro uma vez corrido, sem interrupção. Depois fui caminhar no centro da cidade a procura de materiais para a nossa mostra que será já na semana que vem. 

Segue o roteiro que acreditamos ser o final, porém os textos ditos serão alterados por João Dias:

Rastro

 

 

 

Escuta-se um estalar de dedos que vem dos corredores. Um homem, abra a porta e entra na sala de ensaios estalando os dedos, como se estivesse marcando o tempo. Ele carrega alguns pertences. Assim que abre a porta cumprimenta as pessoas: 

 

“Boa noite”

 

Ele pousa suas coisas perto da porta, olha o espaço e depois de alguns segundos olha para a porta e diz: 

 

“Eu vou deixar a porta aberta por que precisamos de uma saída”. 

 

Ele vai em direção ao espaço de cena, para de pé e pergunta a alguém da plateia: 

 

“Que horas são agora?”

 

A pessoa responde ele então retira um pedaço de giz do seu bolso e escreve na parede lateral da sala o horário dito pela pessoa. Assim que escreve escutamos uma voz em off dizer gradativamente o horário de vários outros países do mundo. O homem então anota os horários nas paredes. A voz passa a dizer os horários cada vez mais rápido e o homem corre de um lado pro outro da sala tentando anotar todos os horários nas paredes, porem não há tempo hábil para isso, ele entra num certo desespero, até que a a voz repete várias vezes o horário de Brasília: “Em Brasilia 19:30, em Brasilia 19:30, em Brasilia 19:30, em Brasilia 19:30, ….”. A voz cessa. O homem para, exausto olha para o publico e diz:

 

“o que quero dizer está aqui”

 

Ele então começa a caminhar lentamente em direção ao público enquanto descreve o que vê na sala:

 

“Está nesta fresta desse chão, nesse sapato azul, nessa camisa de botão”

 

Ele chega na plateia e se senta ao lado das pessoas e continua a descrever:

 

“o que quero dizer está aqui nesses olhos negros, nessa bolsa de flor, nessa maçaneta. O que quero dizer está aqui, nessa janela, nesse som de ar condicionado, na sua respiração. O que quero dizer está aqui, nessa  (ele então vê uma cadeira, esboça uma felicidade que vai crescendo)… cadeira!!!”

 

Ele pega a cadeira e leva ela para a cena como se tivesse encontrado a resposta para tudo que procurava, ele inicia uma espécie de dança com a cadeira, corre pelo espaço com ela como se segurasse alguém pela mão. Durante toda essa ação escutamos uma música. Ele então coloca a cadeira no centro do palco, sobre nela, abre os braços como se estivesse na beira de um penhasco e diz:

 

“Essa é nossa única e última chance”

 

Ele então se balança para a frente como se tentasse equilibrar-se até cair da cadeira, como num salto. Ele cai junto com a cadeira, depois se levanta, levanta a cadeira sobe novamente, abre os braços e repete em outro língua: 

 

“This is our only and last chance”

 

Ele então se balança para a frente como se tentasse equilibrar-se até cair da cadeira, como num salto. Ele cai junto com a cadeira, depois se levanta, levanta a cadeira sobe novamente, abre os braços e repete em outro língua:

 

“Esta és nuestra única y ultima oportunidad”

 

Ele então se balança para a frente como se tentasse equilibrar-se até cair da cadeira, como num salto. Ele cai junto com a cadeira, depois se levanta, levanta a cadeira sobe novamente, abre os braços e olha para a plateia e diz:

 

"Me esqueci”

Desce da cadeira.

 

"Me esqueci, que hoje é dia X. Eu tava me esquecendo que hoje é aniversário do Steve Jobs, eu tava me esquecendo, que hoje é também aniversário do Alan Proust. Eu tava me esquecendo que hoje é aniversário da Dona Maria Dolores, minha vizinha lá de Rondônia. Eu tava me esquecendo que ela me viu crescer, eu tava me esquecendo que hoje é aniversário sabe de quem? Do Bach!!! Hoje é aniversário do Bach!  Eu tava me esquecendo que Dona Maria Dolores escutava Bach no seu aniversário. Eu trouxe uma coisa para não deixar esse dia passar em branco”

 

Retira da mochila um cupcake, uma vela e um isqueiro. Canta parabéns para Dona maria Dolores.

 

“Sempre que falo de aniversário lembro de um presente que eu ganhei no meu aniversário de oito anos e que carrego comigo até hoje, para onde quer que eu vá”

 

Faz sinal para que a plateia espere pela surpresa. Fazendo suspense, envia a mão dentro da mochila e retira um boneco todo troncho. Mostra para a plateia, brinca com o o boneco, depois de um tempo leva o boneco até a cadeira que está no centro e diz:

 

“É por viver que você verá o sol nascer e se por todos os dias”

 

Deixa o boneco sentado na cadeira e começa andar em volta da cadeira enquanto diz o texto:

 

“Você vai ver o dente de leite dele cair, vai ver o primeiro dia de aula dele, vai ver a goiabeira do quintal ser cortada, vai ver a calçada virar concreto, você vai ver ele saindo de casa, vai ver ele se sentir sozinho ”

 

Aos poucos vai aumentando a velocidade da caminhada até se transformar numa corrida em volta da cadeira, sua voz também vai se intensificando. A cada volta retira uma peça de roupa ate no final do texto acabar nu sentado ao lado do boneco.

 

“vai ver ele querer voltar pra casa, mas ele não vai voltar. Ele vai tentar atravessar a linha amarela do metro, uma duas, três vezes. Você vai ver ele desistir, ver ele entender que a vida é fracassar todos os dias. Você vai ver quando ele se apaixonar pela primeira vez. Você verá quando ele for traído pela primeira. Pela segunda. Pela terceira vez. Você vai ver quando a avô dele morrer daquele câncer de estômago. Você vai ver quando ele sorrir porque a namorada ficou grávida. Você vai poder estar com ele quando a namorada dele perder o filho. Você não vai poder fechar os olhos quando ele perder o segundo filho. Você vai ter que ver quando ele começar a desacreditar em Deus porque ele tirou tudo dele. Você verá que viver não é tudo. E você bater a cabeça na janela quando tentar voar. Você vai ver que você não consegue voar, você só consegue viver. Você vai tentar, de todas as maneiras, pular os momentos tristes da sua vida, mas eles vão chegar à sua mente no momento em que você estivesse sentindo mais sozinho. Você se sentirá sozinho todos os dias porque todos que você ama vai morrer antes de você. Você vai tentar viajar lugares incríveis, mas vai perceber que é em vão porque mesmo rodeado de pessoas ainda vai ser aquele mesmo estúpido sozinho que não consegue morrer. Você tenta o tempo todo e a cada instante morrer. Você tenta ultrapassar a linha amarela do metro. Você tenta. Você tenta. Você tenta. Mas você falha miseravelmente. Você percebe que viver é falhar miseravelmente todos os dias. Mas você não morre. Você é estúpido demais para morrer. Você é falho demais para morrer.”

 

 

 

Ele para se senta nu ao lado do boneco na mesma cadeira. Silêncio. Respira, olha para a plateia, aos poucos vai colocando as mãos na barriga, vai ficando grávido. Sua barriga incha, ele então tenta se levantar da cadeira. Ouvimos a música Cello Suite No. 1 de Bach. Com muita dificuldade ele levanta, aos poucos começa a sair leite de sua boca, ele caminha com dificuldade até a parede lateral, aos poucos vai deixando de estar grávido e passa estar velho. Tudo envelhece nele, pernas, braços, rosto. Ele aponta com o dedo como se indicasse uma direção. Lentamente vai caminhando em direcção a parede com o dedo em riste. Ao se aproximar da parede escreve com o próprio suor: Tempo?

Olha, se afasta aos poucos. Vai desconstruindo aquele corpo, até perguntar para alguém da plateia:

 “Que horas são?

A pessoa responde ele então começa a se vestir enquanto diz:

 

“Já se passaram X minutos que estamos aqui”

 

Já vestido, corre para a cadeira, segura o boneco em suas mãos. Voltamos a imagem do se atirar da cadeira. Ele então se jogo junto com o boneco. Os dois caem no chão, ele aos poucos vai se transformando em cão. E começa a falar sobre suas recordações do passado, presente e futuro.

 

“Eu me recordo de quando dei meu primeiro passo, eu tava segurando na mão no meu tio, eu lembro que ele usava um anel, eu lembro da textura do anel dele, eu me recordo que consegui dar dois passos, depois eu cai. Eu me recordo do meu primeiro dia de escola, eu me recordo que grudei no pescoço da minha mãe e nua queria mais soltar, aquele era o lugar mais seguro do mundo, eu me recordo do primeiro beijo, da primeira vez que fumei maconha, me recordo do meu filho dando o primeiro passo, eu me recordo das vezes que tive que ir ao banheiro por causa da incontinência urinária… ”

 

A medida que vai falando seu corpo vai ficando pesado, e vai caindo lentamente até o chão, deformando seu corpo e sua voz, então começa a misturar memórias pessoais com fatos históricos:

 

“Eu me recordo de quando a gente derrubou o muro, eu me recordo que você tava usando uma picareta e seus olhos, eu me lembro dos seus olhos…Eu me recordo da câmara de gás, eu segurei sua mão, ela suava, estávamos entregues, não havia nada que podíamos fazer…”

 

A medida que vai falando vai se transformando numa espécie de fera, cão, mostra os dentes, rosna, como se sentisse ameaçado. Ele como cão, destrói o boneco com os dentes enquanto fala o texto.

 

“Eu me recordo da bomba que a gente colocou naquela estação, eu me recordo da gente explodindo junto com ela, as pessoas correndo gritando, fogo por todos os lado, gente morta. Eu me recordo na gente gritando em frente ao congresso nacional “diretas já” anos depois “foi golpe”.. eu lembro do seu corte de cabelo nesse dia… ”

 

Aos poucos vai desistindo daquilo como se se visse frágil e indefeso. Vai se recolhendo como um feto dentro do ventre. Se vê pequeno e frágil, após algum silêncio diz com uma voz frágil:

 

“eu declaro finalmente que estou cansado” (repete 3 x)

 

Depois olha com cuidado para a plateia, olha para alguém específico e pede água:

 

“você pode me dar um pouco d´água?”

 

A pessoa da plateia vê algumas garrafas de água no espaço, pega e leva até o homem, ele pede para colocar em sua boca como a um bebe que é alimentado. Ele então fica com muita agua na boca. A pessoa da plateia sai e ele diz com a água na boca:

 

“Na minha língua não existe palavra para Deus”

 

No início o publico não compreende a frase por causa da água. Ele repete até toda a água sair da sua boca e se tornar audível. Ele para, respira e começa uma espécie de reza, com um canto:

 

“papa dom ba lá, dom ba lá, uco nam ce manun papa.. papa dom ba la…”

 

Ele começa a se limpar, retira sua camisa e enquanto canta, entra numa espécie de ritual de purificação. Após se limpar com as mãos e a agua que ficou, se levanta, ainda cantando, e começa a apagar as marcações de giz nas paredes. Ele apaga como se tivesse também limpando outros corpos. Com cuidado e carinho. Ele usa umas garrafas de água espalhadas pela sala. A sua velocidade vai aumentando junto com a intensidade do seu canto, o canto toma toda a sala. Ele vai aumentando cada vez mais sua velocidade como se tivesse urgência de apagar aquelas horas daqueles corpos. Ele finamente apaga tudo, para no fundo, recolhido na parede olha para a plateia e diz: 

 

“Neste lugar no dia de hoje, se inicia  uma época na história do mundo e podemos dizer que assistimos a sua origem”

 

Ele olha para alguém da plateia e pergunta:

 

“que horas são agora?”

 

A pessoa responde e ele então pergunta:

 

“Eu devo continuar?”

 

Black out - fim 

 

26/02/2018

11° Dia - Happy Birthday Bach!

 

Sábado dia 24/02/18, lá estamos nós em uma sala de ensaios as 9:30 da manhã. Lapidando o diamante, escavando o mármore, a procura de imagens e poesia. Michelangelo certa vez ao ser perguntado sobre como fizera a escultura de Davi (com quase 4,5 metros em um só bloco de mármore) ele disse: "Foi fácil, fiquei um bom tempo olhando o mármore até nele enxergar o Davi. Aí, pequei o martelo e o cinzel, e tirei tudo o que não era Davi". Quando penso em criar em teatro, penso que temos tudo que precisamos: corpo, tempo e espaço. E então é "só" fazer como Michelangelo, encontrar o que se quer e descartar o resto. Temos todo o legado dos grandes teatrólogos do século XX que nos fazem pensar como é possível criar a partir do próprio corpo, porém precisamos ir além, atualizar nosso pensamento para o dia de hoje, entender como o mundo e as coisas a nossa volta fazem com que esse corpo-mente-voz seja diferente, fazem com que esse teatro seja diferente. É preciso atualizar o tempo. Questionar os mestres. Isso não é uma tarefa fácil. Por isso o ator hoje precisa trabalhar muito, dia a dia, encontrar materiais e técnicas que suportem seu pensamento e trabalho prático. 

Bom, passemos ao nosso ensaio. Trabalhamos eu, Jander, Renato e Alencar das 9:30 até as 11 aproximadamente, para levantar duas cenas: A cena do boneco/homem grávido e a cena dos Parabéns para os aniversariantes do dia. Fomos experimentando coisas até chegar nas seguintes cenas:

Cena 1: Eu começo andar em volta da cadeira em sentido horário, e a dizer para o boneco que está sentado na cadeira, tudo que ele irá ver na vida dele. Utilizamos o texto feito pelo Jander, e ainda acrescentamos memórias minhas. O andar se intensifica até começar a correr e a dizer cada vez mais forte o texto. A medida que vou correndo vou arrancando as peças de roupa até terminar só de cuecas sentado ao lado do boneco em silêncio. Depois disso fico "grávido", me levanto da cadeira até me tornar um velho.

Cena 2: Estou fazendo a partitura de cair da cadeira, até q interrompo a ação para dizer que "me esqueci". Como se fosse uma falha,  porém começo a dizer: "me esqueci que hoje é dia 24/02 e que nesse dia nasceu Steve Jobs, eu estava me esquecendo que hoje seria aniversário de Steve Jobs. Eu estava me esquecendo que hoje é também aniversário da Dona Maria Dolores, minha vizinha. Eu tava me esquecendo que ela me viu crescer. Ah, eu tava esquecendo que hoje é aniversário do Bach! E que por uma conhecidência a Maria Dolores escutava Bach no dia do aniversário dela. Eu trouxe uma coisa aqui para não deixar passar essa data em branco. - tira da mochila, um cupcake, velinha e um isqueiro - Vamos cantar parabéns para dona Dolores gente!! - e canta. No final quando acaba os parabéns diz: "eu levo comigo um presente que ganhei em meu aniversário de oito anos, vou mostrar para vocês". E retira da mochila um boneco troncho. A partir daí se inicia a cena com o boneco sentado na cadeira.

Bom mostramos ao Francis, ele então me pediu para repetir algumas coisas e acrescentou outras. Ficamos então com as seguintes cenas fechadas:

Cena 01: mantemos o início, talvez acrescentando umas pausas no caminhar inicial. No final fico nu e sento ao lado do boneco, fico grávido, ao som de Bach, me levanto com muita dificuldade da cadeira, enquanto da minha boca sai leite. Vou envelhecendo o corpo enquanto ando ruma a parede lateral, me torno velho, com o dedo aponto como quem aponta um caminho, chego até a parede e com meu suor escrevo: Tempo?... Vou desconstruindo o corpo e pergunto para a plateia: "Que horas são?" Começo a buscar minhas roupas e a vesti-las enquanto digo: "já se passaram x tempo que estamos aqui", "Eu devo continuar?". Corro e subo na cadeira segurando o boneco, voltamos como em flashback para a cena das quedas. Caio junto com o boneco, fico no chão, ou me transformando em cão, começo a recordar e a destruir o boneco com os dentes enquanto faço o texto.

Cena 02: O aniversário do Bach sempre vai ter, mesmo não sendo aniversário dele. Mantemos sempre ele e dona dolores. O restante fica como está, no final pega o boneco e brinca um pouco com ele antes de iniciar a cena da cadeira.

Resumo do dia:

Acabamos o ensaio as 12:30, eu estava cansado. Foi bem exaustivo, repeti muitas vezes as ações. Encontramos uma imagem potente, o homem grávido nu, eu mesmo me emocionei quando fiz pela primeira vez a proposta do diretor. Depois escrever com o próprio suor: Tempo?, foi um desfecho singelo e potente. Amanhã descansamos e na segunda retorno para ensaiar a estrutura toda e vez como vai funcionar. Estamos felizes com as cenas levantadas e com a estrutura, acreditamos que agora o trabalho tem uma cara e carrega uma dramaticidade interessante. Seguimos criando para nos reinvertarmos todos os dias.

Sem fotos hoje.

 

10° Dia - Criar junto

 

Hoje tinha que apresentar duas "cenas" a partir das provocações do dia anterior. Chegamos todo juntos na sala de ensaios, eu, Francis, Jander, Renato e Alencar. Francis nos pediu para trabalharmos as cenas antes de mostrar para ele, nos deu 2 horas para isso. Enquanto os meninos preparavam materiais eu fiz um alongamento e em seguida pedi para que eles se sentassem em um determinado lugar no espaço para eu mostrar o que havia imaginado. Eu avisei que iria improvisar duas ideias que tive e então comentávamos para depois melhorar. A primeira intervenção era feita a partir da provocação - Marcas no corpo. Coloquei uma música, um piano triste, e iniciei minha partitura de movimentos e ações. Movimentos lentos, quase que em dança descreviam um homem que se olhava no espelho e via o tempo passar, ia perdendo os cabelos até se ver sem cabelos. Não utilizei nenhuma palavra. Depois criava com minha camiseta preta a imagem de um homem sem rosto, que se contorcia, até ficar "grávido" do tempo (foto). Mostrei a partitura a eles, conversamos pensamos que poderia ser interessante mantém esses elementos e mostrar para  o Francis, antes de descartarmos. Alencar sugeriu eu utilizar uma cadeira, na primeira parte. Pensamos que parecei que haviam duas cenas em uma, e que isso poderia ser decupado. Conversamos e passamos a segunda cena.

Após a performance do Francis com os sapatinhos fiquei com a imagem de um boneco na cabeça, então antes de ir pro ensaio eu mesmo confeccionei um boneco para experimentar. Porém não sabia o que fazer com esse boneco, então provoquei os meninos a fazermos a mesma dinâmica proposta por Francis no primeiro dia de ensaios. Escrevemos frases em post its e tínhamos três minutos para improvisar uma cena usando o boneco. Jander, Alencar, Renato e eu então fizemos pelo menos duas improvisações cada, anotei os seguintes materiais:

Alencar: nina o boneco como um filho e canta "flor de mamulengo" - Conversa com o boneco em um hospital, não escutamos a voz do boneco, mas entendemos o diálogo a partir das respostas de Alencar.

Jander: Senta-se lado a lado com o boneco e começa a contar uma história, sempre repetindo "Calma eles ainda vão chegar" - Eles brincam num parque depois se deitam para olhar as nuvens.

Renato: Chama o boneco de "menino sem nome" - Vai até a janela e senta o boneco como se olhassem o mar. O boneco parece fazer carícias na cabeça de Renato. - "o mar é logo ali virando a esquina"

Diego: Fala que o boneco é um presente que ganhou em um aniversário - "será que eu sou boneco de alguém?".

O diretor então chegou na sala e eu mostrei então a primeira cena inspirada pelas "Marcas no corpo" e depois Francis me pediu para repetir algumas coisas. Expliquei sobre o que havia pensado e sobre o boneco porém não havia cena pronta ainda para o boneco. Francis me fez uma pergunta: você acha que esse boneco vai viver mais que você?". Eu respondi que sim. Ele então pediu para colocar o boneco sentado na cadeira e me pediu para começar a andar em círculos e descrever tudo que o boneco iria ver na "vida dele". Comecei a andar e falar logo comecei a correr e a gritar. Francis pediu para Renato também entrar e fazer o mesmo. Acabamos o exercício sem ainda ter ideia do que poderíamos fazer com aquilo, porém notamos que poderia virar um bom material. Começamos a discutir sobre ideias de temas e lugares que o trabalho estava tomando, anotei as seguintes frases:

Em você tudo nasce tudo morre.

Você é a entidade tempo e pode dizer como é bom e ruim ser o tempo.

Criar um jogo de humanização, ser homem e ser tempo.

Sou aquele que gesta a vida e a morte eternamente.

Ela rezava para poder morrer, pois como já estava velha já conhecia mais gente morta que gente viva.

Escutar a música - Lema - Ney Matogrosso.

O tempo é um orixá no candomblé.

No Japão existe o vale dos suicidas.

Tudo que o homem toca morre.

A imagem do espetáculo é você de jogando da cadeira.

Trabalhar velocidades.

A falta que a falta faz - assistir no youtube

Eterna busca por preencher

A solidão nasce com a gente

A falta é da nossa natureza

Boneco pode ser um balão.

Depois da nossa conversa Francis pediu as seguintes tarefas de casa para mostrar no dia seguinte:

Jander devia escrever o texto que seria dito na cena que ando as voltas da cadeira com o boneco, deveríamos estruturar essa cena. E depois queria que houvesse uma cena que causasse uma "ruptura" e queria que essa seja fosse contar parabéns as pessoas que fazem aniversário naquele dia.

Renato deveria pensar no figurino e nos objetos de cena, para que na semana que vem esteja tudo definido.

Resumo do dia:

Hoje foi o último dia para levantar materiais, a partir de segunda-feira vamos começar a trabalhar com que já temos. Acredito que foi bem produtivo por encontramos mais duas cenas para compor a estrutura. Trabalhar em equipe é sempre mais produtivo. Nos alimentamos uns aos outros com nossas intervenções, ideias e discussões. Amanhã será dia de melhorar o que temos para que esse material possa estar na estrutura criada até agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9° Dia - Performar é preciso

1°- exercício

Quando chegamos na sala, o diretor me pediu para descrever marcas do tempo no meu corpo . Fiquei só de cuecas próximo a parede, para expor mais meu corpo. Foi descobrindo, lembrando e revelando marcas, arranhões, rugas, tattoos. Depois Francis pediu para que Renato descrevesse como em um exame médico marcas no meu corpo. Logo pediu para que Renato descreve as marcas do meu corpo como se fossem memórias dele. No final Francis me pediu para falar das tattoos, ano que foram feitas e perguntava o que estava acontecendo naquele ano que me marcou. Esse exercício foi desafiador, falar das minhas memórias e perceber o que ficou de cada ano registrado em meu corpo-memória, não foi uma tarefa fácil. Percebi o quanto tenho esquecido de mim e do que me acontece, a frase que me ficou foi: "Parece que estou sempre começando do zero". No final o diretor falou que queria ver a "beleza dos efeitos do tempo" em meu corpo e como eu descreveria nascimentos de rugas e morte de células, queda de cabelo, nascimento de pêlos brancos, etc. Queria ver a beleza do envelhecer. As vezes morte é nascimento. Como dizia o filme que vimos sobre o tempo: "Nascemos para começar a morrer".

2°- exercício

Quem acompanha esse diário de bordo, vai lembrar do filme que vimos sobre o tempo, "Quanto tempo tem o tempo". Nossa tarefa hoje era mostrar as performances criadas por cada um inspirador no filme. Hoje em estávamos eu, Francis, Jander e Renato na sala de teatro da escola Porto Iracema de Artes para mostrar nossas performances. A primeira performance foi proposta por Renato, ele então recebia um a um na sala, sentávamos frente a frente, ele então falava de sua memórias e de como fazia para se lembrar das pessoas. Depois pediu para que eu escreve em um papel detalhes que me fariam lembrar de alguém. Ele então cantava uma canção para mim e pedia para que eu perdesse esse papel "pela casa" para um dia encontrar. Em seguida Francis trouxe uns copinhos com chá de camomila, sentamos em roda em volta de um banco e ele mostrou fotos de alguns de seus aniversários, e nos contou quantas horas havia vivido em cada aniversário. Depois contou sobre pessoas que foram mortas e que deveriam ter muitas horas ainda pela frente para viver. Quantas horas você já viveu? Quantas mais tem para viver? Terminamos o chá. Em sua segunda performance trouxe um par de sapatinhos de quando ele deveria ter uns 2 anos de idade ou menos, colocou em cima do banco e começou a descrever o destino que aquela criança ali em sua frente ia ter, descreveu momentos de sua infância, juventude, vontades, desilusões, como se revivesse tudo aquilo ali na sala outra vez. Jander trouxe em sua performance uma lista de 17 itens que formavam uma espécie de metas, porém todas no passado. Item 12 - "Namorar 7 anos uma mesma pessoa", 13- "Nunca mais namorar alguém tanto tempo"... etc. Em minha performance propus encontrar alguém no café onde costumamos lancha, que topasse vender 10 minutos do seu tempo para conversar comigo sobre o tempo. Então nós descemos até o café, os meninos ficaram observando de longe com o papel de tentar adivinhar a história da pessoa. Abordei um casal que conversava, perguntei se algum deles toparia me vender seu tempo e um deles topou. Sentei-me marquei 10 min no relógio e começamos, gravei a conversa. Ele também se chamava Diego. Falamos sobre percepção do tempo, memórias, sonhos. Ele falou sobre a relatividade do tempo, de como fazia para que o tempo para ele passasse mais devagar. Falou de marcas no seu corpo que criaram memórias. Falou da gravidade que com o tempo é mais perceptível. O tempo para ele é uma ilusão. Após nosso bate papo, paguei-o, e voltamos para a sala e escutamos a gravação da conversa. 

No final Francis passou uma tarefa de casa, criar duas cenas:

1 - Marcas no corpo (1°exercício)

2- Elementos suscitados pelas performances (2°exercício).

Resumo do dia:

Eu não estou acostumado a fazer performances, para mim foi um desafio. E entender a poesia de cada uma das performances foi interessante para enriquecer nosso trabalho. Acredito que sempre fica alguma coisa das experiências que fazemos. Amanhã devo mostrar duas cenas novas que irão compor a estrutura do projeto. The show must go on.

8° Dia - 1ª Estrutura

Após sete dias de trabalho hoje (21/02) conseguimos levantar a primeira estrutura de cenas. Hoje não houve tempo para o start psicofísico. Tínhamos pouco tempo pois teríamos uma convidada que iria assistir a nossa cena as 16:30. As 14:05 comecei a mostrar os roteiros que havia trabalhado nos dias anteriores para o diretor. Hoje confesso, eu pela primeira vez não estava em um dia bom, parecia que nada fazia sentido dentro de mim, parecia que eu não estava ali, presente, e de fato eu não estava. Acredito que não ter feito o start contribuiu para isso, porém também estou me recuperando de uma inflamação na garganta que me deixou quase quatro dias de cama. Hoje completa 17 dias em Fortaleza, dos quais trabalhamos 8 dias. Pois tivemos carnaval e depois eu fiquei doente. Bom, seguindo! Eu havia preparado os roteiros a dois dias atrás e não estava me sentindo preparado para mostrar os roteiros ao diretor. Eu até hoje não havia oferecido resistência aos pedidos do diretor, então não seria hoje. Comecei a mostrar o primeiro roteiro, foi difícil, estranho, não me lembrava. Meu corpo não estava ali. Quando cheguei no meu do roteiro eu fiz o que nenhum ator deve fazer, interromper e dizer que não estava conseguindo. Bom, seguimos, passamos ao segundo roteiro, esse foi um pouco melhor, mais não me sentia conectado comigo, com o espaço e com aquele tempo. Após terminar, o diretor me pediu para repetir algumas coisas, ele também introduziu outras e a medida que ia fazendo ia me dirigindo. Até chegarmos em uma pequena estrutura de aproximadamente 20 min para mostrarmos a nossa convidada. Eu percebi que quando ele estava me dirigindo, quase no final, foi quando eu me percebi presente. Após essa passagem, nós relembramos o que fizemos e em seguida apresentamos o seguinte roteiro:

Desmontando o Tempo

1° Roteiro

 

 

 

Escuta-se um estalar de dedos que vem dos corredores. Um homem, abra a porta e entra na sala de ensaios estalando os dedos, como se estivesse marcando o tempo. Ele carrega alguns pertences. Assim que abre a porta cumprimenta as pessoas: 

 

“Boa noite”

 

Ele pousa suas coisas perto da porta, olha o espaço e depois de alguns segundos olha para a porta e diz: 

 

“Eu vou deixar a porta aberta por que precisamos de uma saída”. 

 

Ele vai em direção ao espaço de cena, para de pé e pergunta a alguém da plateia: 

 

“Que horas são agora?”

 

A pessoa responde ele então retira um pedaço de giz do seu bolso e escreve na parede lateral da sala o horário dito pela pessoa. Assim que escreve escutamos uma voz em off dizer gradativamente o horário de vários outros países do mundo. O homem então anota os horários nas paredes. A voz passa a dizer os horários cada vez mais rápido e o homem corre de um lado pro outro da sala tentando anotar todos os horários nas paredes, porem não há tempo hábil para isso, ele entra num certo desespero, até que a a voz repete várias vezes o horário de Brasília: “Em Brasilia 19:30, em Brasilia 19:30, em Brasilia 19:30, em Brasilia 19:30, ….”. A voz cessa. O homem para, exausto olha para o publico e diz:

 

“o que quero dizer está aqui”

 

Ele então começa a caminhar lentamente em direção ao público enquanto descreve o que vê na sala:

 

“Está nesta fresta desse chão, nesse sapato azul, nessa camisa de botão”

 

Ele chega na plateia e se senta ao lado das pessoas e continua a descrever:

 

“o que quero dizer está aqui nesses olhos negros, nessa bolsa de flor, nessa maçaneta. O que quero dizer está aqui, nessa janela, nesse som de ar condicionado, na sua respiração. O que quero dizer está aqui, nessa  (ele então vê uma cadeira, esboça uma felicidade que vai crescendo)… cadeira!!!”

 

Ele pega a cadeira e leva ela para a cena como se tivesse encontrado a resposta para tudo que procurava, ele inicia uma espécie de dança com a cadeira, corre pelo espaço com ela como se segurasse alguém pela mão. Durante toda essa ação escutamos uma música. Ele então coloca a cadeira no centro do palco, sobre nela, abre os braços como se estivesse na beira de um penhasco e diz:

 

“Essa é nossa única e última chance”

 

Ele então se balança para a frente como se tentasse equilibrar-se até cair da cadeira, como num salto. Ele cai junto com a cadeira, depois se levanta, levanta a cadeira sobe novamente, abre os braços e repete em outro língua: 

 

“This is our only and last chance”

 

Ele então se balança para a frente como se tentasse equilibrar-se até cair da cadeira, como num salto. Ele cai junto com a cadeira, depois se levanta, levanta a cadeira sobe novamente, abre os braços e repete em outro língua:

 

“Esta és nuestra única y ultima oportunidad”

 

Ele então se balança para a frente como se tentasse equilibrar-se até cair da cadeira, como num salto. Ele cai junto com a cadeira, depois se levanta, levanta a cadeira sobe novamente, abre os braços e olha para a plateia. Respira, fica alguns segundos em silêncio e lentamente começa a descer da cadeira até se sentar enquanto fala sobre suas recordações do passado, presente e futuro:

 

“Eu me recordo de quando dei meu primeiro passo, eu tava segurando na mão no meu tio, eu lembro que ele usava um anel, eu lembro da textura do anel dele, eu me recordo que consegui dar dois passos, depois eu cai. Eu me recordo do meu primeiro dia de escola, eu me recordo que grudei no pescoço da minha mãe e nua queria mais soltar, aquele era o lugar mais seguro do mundo, eu me recordo do primeiro beijo, da primeira vez que fumei maconha, me recordo do meu filho dando o primeiro passo, eu me recordo das vezes que tive que ir ao banheiro por causa da incontinência urinária… ”

 

A medida que vai falando seu corpo vai ficando pesado, e vai caindo lentamente até o chão, deformando seu corpo e sua voz, então começa a misturar memórias pessoais com fatos históricos:

 

“Eu me recordo de quando a gente derrubou o muro, eu me recordo que você tava usando uma picareta e seus olhos, eu me lembro dos seus olhos…Eu me recordo da câmara de gás, eu segurei sua mão, ela suava, estávamos entregues, não havia nada que podíamos fazer…”

 

A medida que vai falando vai se transformando numa espécie de fera, cão, mostra os dentes, rosna, como se sentisse ameaçado.

 

“Eu me recordo da bomba que a gente colocou naquela estação, eu me recordo da gente explodindo junto com ela, as pessoas correndo gritando, fogo por todos os lado, gente morta. Eu me recordo na gente gritando em frente ao congresso nacional “diretas já” anos depois “foi golpe”.. eu lembro do seu corte de cabelo nesse dia… ”

 

Aos poucos vai desistindo daquilo como se se visse frágil e indefeso. Vai se recolhendo como um feto dentro do ventre. Se vê pequeno e frágil, após algum silêncio diz com uma voz frágil:

 

“eu declaro finalmente que estou cansado” (repete 3 x)

 

Depois olha com cuidado para a plateia, olha para alguém específico e pede água:

 

“você pode me dar um pouco d´água?”

 

A pessoa da plateia vê algumas garrafas de água no espaço, pega e leva até o homem, ele pede para colocar em sua boca como a um bebe que é alimentado. Ele então fica com muita agua na boca. A pessoa da plateia sai e ele diz com a água na boca:

 

“Na minha língua não existe palavra para Deus”

 

No início o publico não compreende a frase por causa da água. Ele repete até toda a água sair da sua boca e se tornar audível. Ele para, respira e começa uma espécie de reza, com um canto:

 

“papa dom ba lá, dom ba lá, uco nam ce manun papa.. papa dom ba la…”

 

Ele começa a se limpar, retira sua camisa e enquanto canta, entra numa espécie de ritual de purificação. Após se limpar com as mãos e a agua que ficou, se levanta, ainda cantando, e começa a apagar as marcações de giz nas paredes. Ele apaga como se tivesse também limpando outros corpos. Com cuidado e carinho. Ele usa umas garrafas de água espalhadas pela sala. A sua velocidade vai aumentando junto com a intensidade do seu canto, o canto toma toda a sala. Ele vai aumentando cada vez mais sua velocidade como se tivesse urgência de apagar aquelas horas daqueles corpos. Ele finamente apaga tudo, para no fundo, recolhido na parede olha para a plateia e diz: 

 

“Neste lugar no dia de hoje, se inicia  uma época na história do mundo e podemos dizer que assistimos a sua origem”

 

Ele olha para alguém da plateia e pergunta:

 

“que horas são agora?”

 

A pessoa responde e ele então pergunta:

 

“Eu devo continuar?”

 

Black out - fim 

 

21/02/2018

Após mostrar, conversamos. E anotei as seguintes frases que nossa convidada a produtora Tatiana Carvalhedo disse:

"Eu queria estar aqui"

"Sua voz me trouxe pra mim"

"Eu estive aqui esses 20 min"

"Fala de origem, de resistência de tudo que estamos vivendo, fala do contemporâneo. Outros lugares no mundo, outros horários, ou seja tem muito acontecendo nesse momento"

"O canto tem um ritual nele"

"O que a gente tem agora é isso" se referindo a descrição

"Acho que você pode ir mais fundo, mergulhar pra valer nisso"

"Na parte da fera, tem que ser mais mostro"

"Acho que falar em 3 línguas é importante, pois você também traz isso com você"

"A dança do tempo"

Francis pontuou mais algumas coisas, mais voltadas a dramaturgia, depois falou sobre o livro "Infinitamente" de minha autoria e de como eu poderia utilizar mais coisas minhas nesta performance que no livro eu tenho "coragem" de dizer e em cena eu não digo, e destacou algumas frases e imagens:

"Eu vejo ali muita solidão e insegurança"

"Qual a beleza dos efeitos do tempo?"

"E se no final, quando você se sente frágil você pedir um beijo?"

Imagens:

Limpar do corpo os tempos mortos. Como prolongar o tempo que passou e você não conseguiu?

Jogar flores no ventilador.

Resumo do Dia: 

Apesar do dia ser o mais difícil para mim, conseguimos criar um roteiro que pode ser nossa base para o definitivo. A partir de agora vamos levantar poucos materiais, e começar aprofundar o que já temos. Os comentários e participação da Tati foram importante, pois sempre é bom ter um olhar de alguém que não esta imerso no processo. Seguimos.

Hoje não teve foto :(

7° Dia - Levantamento de Roteiros

 

Hoje cheguei as 14:01 na Escola Porto Iracema das Artes, iniciei o start psicofísico  as 14:07. Hoje foi dia de trabalhar corpo-voz. Iniciei com alguns alongamentos simples, a medida do possível sempre procuro fazer movimentos com foco na respiração e nos sons emitidos pelo corpo a partir de cada posição ou ação. Tenho percebido ao longo dos anos de formação que a voz, na maioria das vezes, era/é tratada como um instrumento que deve ser afinado e bem tocado. E não como uma extensão física do corpo, que tem ruídos, falhas, sons estranho, desafinos. Pois bem, é preciso pensar a voz, como corpo. A voz nada mais é do que o resultado entre a friccão/relação do ar com as cordas/pregas vocais (músculo tireoaritenóideo*) . A produção vocal é portanto uma produção corporal que precisa ser trabalhada enquanto corpo e não isolada. Bom, após os alongamento sonoros passei a trabalhar com mais foco nos sons, na voz e posteriormente no canto. Aquecer a voz é aquecer o corpo todo. Trabalhar com articulações do pescoço e cabeça, depois movimentos com a boca, mandíbula, língua, lábios, sempre trabalhando com produção de sons em diferentes registros tímbricos.

*É um músculo que forma a principal massa das pregas vocais. Eles originam-se no ângulo da cartilagem tireóidea e a inserção localiza-se principalmente no processo vocal. O TA é adutor, tensor e relaxador, ou seja, ele abaixa, encurta e espessa as pregas vocais. Esse movimento de encurtar e abduzir as pregas vocais faz com que ocorra a diminuição das distâncias entre as cartilagens aritenóideas e tireóidea. Como consequência desse movimento, as pregas vocais tornam-se com um feixe mais largo que por sua vez reduzirá a frequência da voz, tornando a voz mais grave. Fonte: https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/fonoaudiologia/musculos-da-laringe/16282

A segunda parte do dia de trabalho foi levantar o roteiro que fiz junto com Alencar e em seguida o roteiro feito pelo Francis, Renato e Jander. Estava comigo apenas o Renato nesse dia. Então passei o restante das horas alinhando nosso roteiro em cena com ajuda do Renato.

 

 

 

 

 

 

6° Dia - Recomeço

 

Após o carnaval retornamos aos trabalhos hoje dia 15/02/2018. Esta foi a primeira vez que estive ensaiando sozinho. Hoje optei por ir de bike para o ensaio e foi uma experiência boa, a cidade possui bikes gratuitas em diversos pontos, é só baixar um aplicativo e tudo funciona bem. E além disso boa parte de fortaleza tem ciclo faixa. Bom depois de pedalar vinte minutos cheguei a Escola Porto Iracena, para mais uma tarde de ensaios. Comecei o aquecimento por volta das 14:45. Marco o tempo de início sempre pois isso de alguma maneira irá ecoar no trabalho. O horário de termino é as 18 horas. Outra palavra que gostaria de discutir é aquecimento-alongamento, estou ao longo dos anos que se passam, entendendo cada vez mas que deveríamos chamar de corpo em trabalho, start psicofísico, enfim, um nome que não separasse o "aquecimento" do ensaio, por que fazer este trabalho inicial é sim parte do trabalho, do ensaio. Então vamos chamar aqui de treinamento psicofísico inicial (complexo?), start psicofísico? Bom, hoje explorei movimentos em contato com a parede, a ideia era, assim como no chão, experimentar apoios, peso, gravidade, flexões, pontos de contato e fluxo do movimento (fotos). Hoje, por estar sozinho, eu decidi filmar parte do start psicofísico. No final assisti ao trabalho e percebi que poderia explorar mais determinados movimentos, como o handstand (bananeira),  (capoeira), ou mesmo o peso do tronco precionando a parede, as quedas os saltos, o "caminhar" na parede entre outros.

Após a primeira etapa, passei a ler o roteiro que eu e Alencar elaboramos no último encontro, para então experimenta-lo na prática de cena. Confesso que estar sozinho foi um obstáculo na primeira passagem, pois como não havia o olhar de fora, eu não sabia que não estava dando o melhor de mim. A primeira passagem foi fria e sem sentidos. Já na segunda vez eu me esforcei por perceber essa situação de indisciplina, então isso fez com que na segunda passagem surgissem novos elementos. Eu estava usando giz para escrever nas paredes, e o pó do giz fez minhas mãos ficarem brancas, isso me deu a ideia de homem velho, então experimentei usar o pó também na barba e no rosto. Isso pode funcionar, mas preciso mostrar para meu diretor, espero que ele não leia esse texto até amanhã. Bom alem disso também fiz alguns testes utilizando água na boca para falar, também experimentei posições para a figura do "cão". Após passar pela segunda vez, percebi também que estou utilizando muitos artifícios cenograficos, a água, o giz, a cadeira, o pó, enfim, pensei que isso tudo não me ajudava a fazer teatro. Mas o que é fazer teatro? Bom, o que anotei assim q terminei foi: "muitos artifícios, pouco teatro". Também registrei a solidão da sala de ensaio como um fator novo e que dificultou meu empenho. Sempre que puderem tenham alguém, um olhar de fora, isso ajuda a você ter mais consciência do que está fazendo em cena além de vários outros benefícios.

Bom, amanhã será um dia cheio. Preciso ainda ensaiar o roteiro 2, escrito por Francis e pelo Jander. E a noite devo "apresentar" os dois roteiros par toda a equipe e ainda teremos uma convidada especial, a produtora de Brasília Tatiana Carvalhedo. Portanto, amanhã terei que ensaiar os dos roteiros na parte da tarde e a noite farei a "demonstração/apresentação".

Resumo do dia:

Chamei de recomeço pelas dificuldades encontradas hoje, primeiro passar 5 dias sem trabalhar (carnaval) e depois trabalhar sozinho na sala de ensaio. Mas de qualquer maneira foi um bom dia de trabalho, já tenho um roteiro ensaiado. Amanhã estarei bem acompanhado!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5° Dia - Dramaturgias

 

Chegamos a sala de ensaios as 14:20. Iniciamos as 14:25 um alongamento individual. Depois disso retomamos o que havíamos trabalhado no dia anterior sobre as "quedas". Falamos sobre entender o movimento e não somente executá-lo. Quando eu ministro meus workshops percebo que muitas pessoas quando peço para desenvolver um movimento, a tendência das pessoas é mostrar o que consegue fazer. Isso não importa, o que procuro é fazer com que o meu corpo compreenda quais mecanismos foram acessados para realizar aquele determinado movimento, que na maioria das vezes não tem uma forma, mas sim uma jornada. Aproveitar a jornada do movimento, não mostrar resultados. Tenho descoberto que o movimento é resultado do equilíbrio entre corpo e mente, que teimamos separar. Quando digo "corpo" gostaria que as pessoas pensassem em corpo-mente-voz-interioridade. A interioridade é o que preenche o sentido do corpo, talvez tenha haver com estado, tensão, atenção, emoção. Outro elemento fundamental quando falamos de teatro, movimento, ação física é a implicação. Tenho entendido isso como "dar vida" ao que é mais simples, os detalhes. Como diria Thomas Richards, na longa e fria residência artística em Pontedera na Itália, durante um dos treinamentos no Workcenter, "a cena é construída com os detalhes" o mesmo dizia João Brites, diretor do Teatro O Bando de Portugal, com quem trabalho a quase onze anos, mesmo sem saber o que dizia Thomas,  "Os pormenores que sustentam uma cena". Dois diretores que trabalham a mais de 40 anos e que pensam sobre o que fazem. Então, é preciso pensar sobre o que fazemos. Por isso escrevo isso hoje, para refletir e para que outros pensem também sobre o que fazemos, ou o que estamos fazendo com nossa arte.

Voltando ao dia de hoje, retomamos os exercícios com o chão, era importante compreender melhor os apoios, rolamentos, peso, gravidade antes de passarmos a etapa seguinte: quedas de superfícies mais altas. Estamos trabalhando com quedas porque no primeiro dia, com as improvisações, surgiu uma cena que fiz onde caia de uma cadeira e depois tropeçava nos próprios pés. Então o diretor me pediu para repetir isso e ter como material que podemos utlizar na dramaturgia.

Após aproximadamente 30 min de experimentos do corpo em contato com o chão, utilizando impulso, apoio, espirais, rolamentos e torções, passamos a etapa seguinte: "quedas" de uma cadeira e de um banco (fotos).

Nessa etapa passamos quase uma hora fazendo, assistindo um ao outro e comentando o que poderia ser mais interessante para nossa cena. Acabamos escolhendo somente uma queda, com a cadeira que entrou no alinhamento dramaturgico que fizemos em seguida. 

Após o treino, sentamos para começar a pensar no alinhamento dos materiais que o diretor destacou no último encontro com ele. Fizemos um "cardápio de materiais" e a nossa tarefa hoje foi pensar em como dar liga ao material, como fazer com que uma cena leve a outra, numa costura interessante que permita o espectador seguir alguma lógica. Então começamos por dividir os materiais em Ações e Falas:

Ações:

Marcar o tempo da cena

Andar sem direção (perdido)

Estalar os dedos

Jogar uma moeda

Quedas e tropeços

A reza

Cão/morder a si mesmo

Água na boca

Primata 

Falas:

"Essa é nossa única e última chance"

"O que quero dizer esta aqui..."

"Na minha língua não existe uma palavra para adeus/deus"

"Eu to pedindo mais uma chance"

"Eu recordo..." (e usar memórias, passadas, presentes e futuras)

"Neste lugar no dia de hoje se inicia uma época na história do mundo,

e podemos dizer que assistimos á sua origem"

Alinhamento que fizemos a partir disso:

A sala tem várias garrafinhas de àgua espalhadas próximo as paredes. A cena se inicia comigo em cena estalando os dedos, dando sentido de passagem de tempo. Em seguida peço para a plateia começar a fazer a mesma ação. Pergunto a alguém que horas são, e passo então a escrever com um giz nas paredes pretas da sala, ao som dos dedos estalando:

O horário dito pela pessoa. E a seguinte frase em pelo menos 3 idiomas: Temos somente 30 minutos.

Após escrever nas 3 paredes da sala começo a ação de estar perdido no meu tempo.

A figura do cão deve aparecer em pequenos espasmos do ator, porém que não seja reconhecível em primeira instância. Os espasmos vão aumentando com o passar do tempo, até culminar no cão.

Após escrever nas paredes vou até o publico e peço com delicadeza (sem utilizar palavras) para olharem em silêncio para o espaço e digo olhando para cada um: "o que eu quero dizer está aqui... nas frestas desse chão, na camisa de botão, no sapato bordado, na janela, nessa cadeira.. o que quero dizer está aqui"

Saiu da plateia arrastando uma cadeira a posiciono no centro do palco, dou a volta nela, e digo: "Essa é nossa única e última chance", em seguida subo na cadeira e faço uma queda pra frente, a ação e se repete 5 vezes  junto com a fala em 5 diferentes idiomas. No final vou até a parede e risco com o giz o horário que passou. Pego uma das garrafas de água e bebo (desmontagem). Volto para o centro do palco, levanto a cadeira e me sento. O cão aqui deve aparecer um pouco mais forte. Começo a contar, sentado, sobre minhas memórias, da infância, da juventude e do meu futuro, a frase sempre deve começar com "eu me recordo...".Após contar sobr eminha morte, eu pergunto para o publico: "e você o que você recorda?. Me levanto vou até a parede e marco o tempo pela terceira vez, pego a garrafa de água e bebo, neste momento fico com água na boca e começo a falar "meu coração cadeira, meu coração tribunal, meu coração jardim...", utilizando a voz que sai com a água na boca. Isso vai se transformando na voz e na ação do cão. O cão então começa a se morder, e de olhos fechados começa fazer perguntas aleatórias sobre a Revolução (Gonçalo M. Tavares)... isso vai se desolvendo até me perceber de joelhos em silêncio. O silêncio se instala, começo a me levantar bem devagar enquanto canto baixinho "a Reza", o canto vai aumentando aos poucos. Levanto pego algumas garrafas de água e começo a apagar as frases e horários das paredes. Apago quase tudo, só fica escrito na parede "resta 1 minuto". Então olho para o publico e digo: "Neste lugar no dia de hoje se inicia uma época na história do mundo, e podemos dizer que assistimos á sua origem"

Fim.

Vale lembrar que este alinhamento foi feito somente no papel, ainda não experimentamos isso em cena. O que faremos na segunda-feira.

Resumo do dia:

Foi um dia mais calmo, porém produtivo. Ficamos com muitas dúvidas sobres os sentidos que queríamos com cada cena, e como isso poderia construir um todo. A tesitura dramatúrgica está aos poucos nascendo. Esse é só o primeiro esboço, com certeza muita coisa vai mudar e ainda temos que produzir novos materiais. Mas o carnaval chegou, o espaço ficará fechado por quase uma semana. Vamos continuar alguns treinos e tentar ensaiar em outro espaço na segunda-feira. Mas é claro que também precisamos desse carnaval. 

4° Dia - Em busca de inspirações e referências

Iniciamos o ensaio as 14 horas na sala de ensaio Escola Porto Iracema de Artes. Hoje estávamos eu e Alencar para fazermos o aquecimento antes da chegada do restante da equipe. A proposta que eu levei para o aquecimento foi a de experimentarmos "quedas", entender como cair.

Primeiro passo: Para entender a queda é preciso começar a trabalhar a ralação do corpo com o chão.

Então, com o corpo deitado no chão de madeira da sala, iniciamos micro movimentos com as articulações e partes do corpo que tocavam o chão. Depois passamos a entender no nosso corpo como fazíamos para conseguir se deslocar utilizando o impulso dos quadris, pernas e braços. A ideia não é somente executar o movimento mais sim entender como começa, quais partes do corpo estão envolvidas, como age a força gravitacional e, por fim, como acaba o movimento. Entendido isso passamos a utilizar o impulso para experimentar pequenos movimentos para se levantar do chão, até gradativamente conseguirmos ficar de pé utilizando impulso e apoios. Numa segunda etapa repetimos o mesmo exercício de levantar-se do chão sem usar os braços ou mãos como apoio.

Segundo passo: espiral (laban)

Passamos então a experimentar diferentes maneiras de levantar e de cair utilizando movimentos em espiral. A espiral é muito importante neste processo pois permite que os movimentos sejam desenhados e ao mesmo tempo funcionais para o objetivo em questão. Entender essa possibilidade de trabalhar com força e impulso foi útil para passarmos a etapa seguinte.

Terceiro passo: Experimentar quedas utilizando espiral e também o peso do corpo para girar e cair com as laterais do tronco evitando assim possíveis lesões. Quando caímos a tendência é utilizar as mãos contra o chão, porém isso pode trazer sérios problemas e até mesmo fraturas, por isso utilizamos nas quedas técnicas que amortessem o impacto do corpo contra o chão e ainda faz com que o ator utilize o impulso da queda para se levantar. Tais técnicas são encontradas em algumas artes marciais como o Karate e o Judô por exemplo.

Após uma hora de experimentos, começamos a trabalhar quedas em diferentes direções. Após nosso aquecimento passamos a segunda parte do ensaio de hoje.

O diretor não estava presente hoje, porém nos deixou como tarefa assistir a um documentário chamado "Quanto tempo o tempo tem" de Adriana L Dutra e Walter Carvalho (tem no Netflix). Segundo Francis precisamos buscar inspirações para o nosso tema e para que realizemos exercícios a partir disso. A tarefa após ver o filme seria de elaborar um programa de performance que será executado por cada um de nós na próxima semana de trabalho.

Após assistirmos ao filme, eu, Alencar e Jander discutimos as impressões e dedicamos o nosso "Tempo" a levantar questões e refletir. Seguem algumas anotações:

Sobre o Filme:

Brincar de ser Deus. Deus também é uma definição de tempo.

Nascemos para começar a morrer.

A velocidade rege nosso tempo, as transformações hoje são instantâneas.

Estamos tão juntos e tão sozinhos (internet: faces e afins)

Estamos cercado de informações por todos os lados esperando a felicidade instantânea.

Meu tempo é minha moeda de troca. (lembrei da entrevista do Mujica para o filme "Human" de  Yann Arthus-Bertrand - 2015) Assistam!!! É incrível.

O prazer é associado a finitude.

O tempo aprisiona o homem.

O filme também tem tempo. (O espetáculo tbm!)

Sobre nossa conversa após o filme:

"Hoje eu faço trinta anos" Jander

"Um dia para um bebê é uma vida inteira. Dez anos para um adolescente é metade de sua vida. Cinquenta anos não conta a história de um idoso" Alencar

"Vocês já perceberam quantas vezes olhamos para o relógio em um dia?" Diego

"Há momentos que vemos o tempo passar" Alencar

"E se ficarmos um dia, ou uma semana sem utilizar o relógio" Diego

"Fazer um filho, escrever um livro..." - 

"Dormimos 1/3 da nossa vida, se vivermos 60 anos, 20 nós passamos dormindo" Diego

"O tempo, segundo Einstein, está associado a lei da gravidade" Alencar

"Lembrei das galinhas que são forçadas a ficarem acordadas para produzir mais, eles colocam uma luz forte dentro dos galinheiros para que elas não consigam dormir" Diego

Ideias que surgiram para realizar a performance:

- Contraste de tempos: em uma rua muito movimentada um grupo de pessoas anda e faz ações em câmera lenta.

- Sugerir a toda equipe para que fiquemos um dia (24 horas) sem olhar nos nossos relógios.

- Trabalhar a ideia de  "ser instantâneo" (ainda não sei como).

Resumo do dia:

Buscar inspirações em trabalhos de outras pessoas faz parte de um processo, nossa linguagem artística é baseada não só no que experienciamos mas também no que vimos, ouvimos, lemos, etc. Somos alimentados por outras pessoas a todo tempo. Pois como dizem, "na arte nada se cria tudo se transforma", e precisamos sempre do outro para compreender melhor a nós mesmos e nossa arte. Para além disso, preciso dizer que foram 4 dias intensos e estou cansado. Na verdade meu corpo está muito cansado e dolorido. Foram dias de trabalhos físicos intensos, e um turbilhão de ideias e materiais. Preciso descansar essa noite, relaxar os músculos, inclusive o músculo da imaginação. Amanhã tem mais.

Hoje não teve fotos. Mas tem a indicação do Documentário! Vale a pena ver!

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3° Dia - Desapegar para criar - Menos é sempre mais 

Começamos o ensaio as 14 horas. Nos primeiros 30 minutos eu me aqueci sozinho na sala de ensaios, trabalhei movimentos e partituras para relembrar o que havíamos trabalhado nos dias anteriores. Também trabalhei com cantos do workshop que fiz na Italia no Workcenter of Grotowski and Thomas Richards.

Hoje recebemos a visita de outros dois parceiros de criação, Renato Coelho e Jander Alcântara. O exercício hoje foi mostrar a eles e ao diretor o conjunto de material levantado em dois dias de trabalho.

Ao entrarem na sala, nem os cumprimentei, a pedido do diretor continuei o aquecimento até iniciar as cenas.

Começava a cena correndo em círculos e dizendo a seguinte frase em 5 idiomas.

"C´est notre dernière et unique chance - Dies ist unsere letate und einzige chance - This is our last an olny chance -esta y nuestra ultima y unica oportunidad - Está é nossa última e única chance "

A partir daí, mostrei as cenas levantadas como descrevi no 2° dia. Assim que acabei, o diretor me pediu para repetir algumas coisas:

O homem perdido devia dizer o texto sobre a revolução, variando as intenções e as tonalidades do corpo e voz.

Repetir perguntas sobre a revolução enquanto ficava ainda mais desesperado por estar perdido.

A reza deveria ser cantada para seus ancestrais, olhando o chão, as paredes como se eles estivessem ali.

A imagem do cão falando sobre suas memórias de infância.

No final da performance nos apresentamos e conversamos sobre o que fizemos.

As impressões do Renato:

"Eu me senti segurando uma granada, durante toda a apresentação"

"Quando ele sentou do meu lado e me olhou no olho eu já vi um cão, senti que ele ia me morder"

"O contra luz da janela me fez ver uma mesa com muitas velas"

"As vezes ele parecia um louva-deus, por causa da posição"

 

As impressões do Jander:

"A primeira coisa que me vem é: Saudade e Adeus, a sensação de ser engolido pelo olhar,

o canto para os ancestrais,e no final com a provocação do Francis como você desmembrou a revolução"

Fala do diretor:

"A frase ´o que quero dizer está aqui´ está melhor q a última vez mais ainda pode melhorar. Queria ver você num lugar mais próximo da performance"

"O barulho que você faz ao tentar falar com a boca cheia de água é bem interessante"

" A imagem do cão também é forte, podemos usar isso, mas gosto do contraste, o cão falando sobre a infância por exemplo" "é violento seu pé na sua boca" "Acho que na parte quando você fala sobre as lembranças pode misturar mais os tempos - infancia/juventude/velhice.

"Precisamos sempre falar de coisas importantes"

A partir disso o diretor sugeriu um Cardápio de Materiais, assim demos nomes as "cenas":

- O homem perdido no seu tempo

- O homem que estala os dedos

- "Essa é nossa última e única chance"

- Quedas e tropeços (diferentes alturas)

- "O que quero dizer está aqui"

- "Na minha língua não existe a palavra Deus"

- "Eu to te pedindo uma ultima chance"

- "Eu declaro finalmente que estou cansado"

- A reza para os ancestrais

- Água na Boca

- Cão

- Me recordo

- Primata

- Moeda e bolsos

A partir disso vamos criar dois alinhamentos, para que eu possa apresentar. O primeiro alinhamento será feito por mim e por Alencar e o segundo será feito por Francis e Jander. Devo apresentar os dois alinhamentos no dia 16/02  à noite. A única regra é que ambos devem acabar com a seguinte frase do texto de Jorge Luis Borges:

"Neste lugar, no dia de hoje, se inicia uma época na história do mundo e podemos dizer que assistimos à sua origem"

 

Exercício complementar

Depois disso o diretor me deixou junto com Jander e Alencar junto com Renato, cada dupla deveria criar 10 ações/movimentos com som que representassem a humanidade. Trabalhamos por 30 min e apresentamos o exercício. Após apresentarmos destacamos quais foram mais interessantes.

- Jogar uma moeda e ver a sorte - Cara e coroa -

- Fazer um primata

- Mãos no bolso com uma risada sarcástica

- Sair da sala no meio do texto

- Balançar um bebe gritando

Francis então me pediu para ir para cena e fazer as seguintes ações:

Um homem tira uma moeda do bolso, joga p cima, tira a sorte, depois enfia a mão no bolsos e começa a retirar dinheiro imaginário e a gargalhar até se transformar num primata.

Assim finalizamos o dia de ensaio.

Resumo do dia:

Produzimos muito material em 3 dias de trabalho. Porém muita coisa foi deixada de lado, para que outras possam ser aprofundadas. As vezes é preciso se desprender, desapegar, descartar para potencializar, afunilar, menos é mais. A equipe parece que já está em sintonia, mesmo com linguagens diferentes, muitas coisas se convergem e se contaminam. Sigamos!

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2° Dia - Experimentar o conhecido para chegar ao desconhecido

O trabalho de leitura dos textos começou na manhã do dia 06/07. A ideia seria criar cenas de pelo menos 5 minutos de cada uma das leituras. Passei a manhã lendo e anotando ideias, ações e imagens que os textos me suscitavam.

As anotação foram as seguintes:

1 - Gonçalo M. Tavares - Sobre a Revolução.

Este texto proposto por Francis, por conhecidência, foi o mesmo texto que trabalhei em sala de aula com meus alunos de graduação na disciplina de Construção de Personagem na Faculdade Dulcina de Moraes em Brasília no semestre passado. O texto também foi utilizado pelo diretor João Brites quando fiz o curso de Formação do Teatro O Bando em 2015 em Portugal. Quem quiser saber sobre o curso do Bando é só acessar: www.cacbando.com

Por já conhecer o texto, procurei me distanciar do que já tinha visto ou experimentado. 

Então a partir da leitura pensei em trabalhar com a ideia de Tortura. Destaquei as seguintes ideias/Frases/ações:

- Sentar-se em uma cadeira enquanto digo o texto em câmera muito lenta. Focar um ponto de fuga e aproveitar as sensações concretas dessa ação.

- Ficar sem ar o máximo que conseguir e quando respirar dizer o texto.

- Deitar sobre a cadeira em prancha, utilizando a força abdominal para gerar desconforto e a partir disso dizer o texto, com aquele corpo em colapso.

Frases: "A que horas começa a Revolução?", "Não vemos mas está aí", "Fazer revolução não é fazer ginástica"

2 - Fernando Pessoa  - "Quando fui outro"

Esse de fato foi o livro que mais destaquei frases, pois é um poema incrível que recomendo a todos lerem! Destquei as seguintes frases do texto:

"Meu coração Tribunal, meu coração banco de jardim, meu coração plateia, meu coração mercado..."

"Não sei se a vida é demais ou de menos para mim"

"Não sei se sinto demais ou de menos, não sei"

"Talvez fosse melhor não ter nascido, de tão interessante que são todos os momentos, que a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, a dar vontade de dar gritos"

"Tão decadente"

"Não sei sentir, não sei ser humano"

"Falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase"

"Agarrar o mundo"

"Sou diálogo contínuo"

"A rua passa por mim, a rua passa debaixo dos meus pés"

"O corpo de todos os poemas"

"Meu ser elástico"

A partir da leitura e deposi de destacar essas frases, pensei que o que move o poema é o "EU", egoísta perante o mundo, porém sincero, pois esse é nosso único ponto de vista real perante o mundo. Eu e o mundo, Eu, Eu, Eu. 

Outra imagem que surgiu é a de um furacão, turbilhão. Eu como forma de um furacão de desejos e de expressão.

Ações

Morder as coisas - Morder meu próprio corpo

Dançar sozinho usando fones de ouvido

3 - Jorge Luis Borges - Antropologia Pessoal

Francis indicou dois contos do livro do Borges "Fenis, o memorioso" e "O pudor da História". A perspectiva sobre o tempo passado estava presente nos dois contos.

Para o primeiro conto destaquei as seguintes frases/ideias/imagens:

Uma voz pausada, resentida, nasal.

Recordo, recordo, recordo.

Memórias, memorioso.

"As palavras são irrecuperáveis"

Eu me recordo do meu futuro, eu me recordo.

Pensou (sentiu)

Repetição/Flash Back

Lembrança da Infância

Para o segundo conto destaquei as seguintes frases/ideias/imagens:

Anômalo

"Os olhos veem o que estão habituados a ver"

"Neste lugar no dia de hoje se inicia uma época na história do mundo e podemos dizer que assistimos a sua origem"

sete pés de terra - sete palmos de terra.

As 14:30 do dia 06/07. Fui até a sala de ensaios junto com o ator convidado David Alencar, dessa vez sem a presença do diretor Francis Wilker. Iniciamos nosso trabalho com um aquecimento, primeiro eu propus alguns movimentos a partir de caminhadas, utilizando as mãos, os pés, o chão. Logo depois Alencar propôs um exercício de exaustão, onde começamos a mover articulação por articulação até o corpo todo estar envolvido nos movimentos aleatórios. Alencar contava em ordem regressiva 10 segundos para movermos tudo que poderíamos antes de paralizar completamente. Isso se repetiu algumas vezes até a exaustão. O interessante é perceber seu corpo, sua energia após os movimentos. Estávamos prontos para começar.

Cena 01 - 

Decidimos nos dar 20 minutos para criar a primeira cena, a partir do texto de Gonçalo M. Tavares. Alencar ficou somente com o texto do Fernando Pessoa, então enquanto eu trabalhei o primeiro texto ele trabalhou com o poema de Pessoa. Após 20 minutos de experimentação mostrávamos um ao outro o que havíamos encontrado. Eu encontrei a seguinte cena que intitulei Manifesto:

Iniciava dizendo: "Manifesto 1"

Sentava lentamente na cadeira enquanto dizia trechos do texto sobre a revolução, de maneira espaçada e tentando utilizar as sensações concretas do esforço para se sentar.

Interrompia a cena assim que me sentava e anunciava o próximo manifesto.

"Manifesto 2"

Sentado na cadeira, respirava fundo e prendia o ar. O movimento começava nas minhas bochechas se movimentando como se estivessem em guerra com o ar. Depois, com a própria sensação de desconforto pela falta do ar começava a me segurar na cadeira e me contorcer pelo desconforto. O objetivo era me colocar a prova, ou seja, ser real a falta de ar. Então quando já estava vermelho e sem conseguir mais segurar, eu me jogava para frente no chão e dizia o texto enquanto respirava esbaforido. Interrompia a cena assim que já podia respirar normalmente.

"Manifesto 3"

Me deitava sobre a cadeira em prancha de barriga para cima. A ideia era segurar todo meu corpo com a força do abdômem. Isso causou um tremor no meu corpo e uma sensação de descontrole, utilizava isso para dizer as frases do texto, que saiam de acordo com o tremor do corpo. Interrompia a cena assim que não conseguia mais segurar meu corpo na cadeira.

"Manifesto 4"

A cadeira foi colocada deitada e eu ficava sentado na cadeira olhando para o teto enquanto dizia:

"Eu poderia passar o resto da vida assim, olhando para o céu"

Apontava o teto e dizia: "Eu poderia ficar aqui vento as nuvens formando figuras no céu: Uma vaca, um cachorro, um moço tocando viola"

"Eu poderia passar o resto da vida aqui, olhando para o teto". "

Enquanto eu apresentava, Alencar anotava o que achava interessante. Ao final da minha cena, invertemos as posições, passei a anotar e Alencar mostrou o que havia encontrado, a partir do poema de Fernando pessoa.

Ele iniciou com um movimento repetitivo com os braços e semi esticados, como se fosse uma máquina. Então ele iniciou um texto improvisado onde falava sobre memórias do passado e do futuro a partir do poema: "Recordo de quando eu era criança..." Enquanto ia dizendo o texto ia aos poucos parando o movimento, até para por completo. Pegou então uma garrafa de água e bebeu em um só gole todo o conteúdo. Logo voltava a repetir os movimentos como um relógio que precisava de baterias ou óleo para funcionar bem. Terminou a cena com a frase "Eu não sei se a vida é demais ou de menos".

Após mostrarmos, falamos sobre as cenas. E decidimos que meu ultimo manifesto, inspirado pela cena de Alencar seria, eu sentado na cadeira que estava deitada beberia a garrafa de água em um só gole, como forma de tortura.

Cena 02 - 

Estabelecemos outros 20 minutos para eu criar a segunda cena a partir do texto do Fernando Pessoa. Alencar dessa vez ficou como observador. E após o tempo estipulado mostrei a cena que havia encontrado.

Começava com fones de ouvido dançando sozinho, retomando um pouco o trabalho que fizemos no aquecimento a partir da provocação de Alencar, moviam o corpo com movimentos aleatórios como se fossem meus últimos 10 segundos. Então falava com o publico quase aos berros, pois a música alta dos fones não me deixava escutar minha própria voz:

"Meu coração cadeira, meu coração jardim, meu coração tribunal..." E seguia improvisando com coisas que me vinham no momento. "Meu coração janela, corpo, pele"

Tirei a camisa e joguei pra cima, dancei mais.

Depois de um tempo parava de dançar e dizia:

"São tantos momentos bons que dá até vontade de ..." E fazia a ação de me morder. Essa ação que partiu de uma vontade de sentir, ia se tornando obcessiva ao ponto de eu me transformar em uma espécia de cachorro, e pensar que as pessoas queriam me comer, como eu estava fazendo. Então começava a rosnar e mostrar os dentes dizendo "Eu, Eu, Eu" até isso se transformar em um latido "Eurrr" "Eurrrrahhh"...

Após mostrar a cena, Alencar comentou o que poderíamos melhorar. E sugeriu que eu quando parasse de dançar fosse até a plateia sentasse ao lado das pessoas e falasse a frase toda do pessoa:

"Eu não sei se sinto de mais ou de menos. Talvez fosse melhor não ter nascido. De tão interessante que são todos os momentos que a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a ranger (...). Dá até vontade de ..."

E então começaria a me morder até me sentir ameaçado pelas pessoas.

Cena 03 - 

Estabelecemos outros 20 minutos para eu criar a segunda cena a partir dos contos do Borges. Alencar dessa vez criou a cena junto comigo. Expliquei para ele o que havia pensado e disse que muito do que queria ele havia  improvisado no texto que fez na cena sobre o poema do pessoa. Expliquei também que queria que fosse uma cena simples, como um momento de confissão de memórias para a plateia. Então eu peguei a cadeira e fomos pensando e construindo juntos a cena. Pensamos que poderíamos usar memórias reais minhas, com detalhes a partir dos sentidos, como o cheiro e a textura das coisas. Penamos em utilizar o elemento da repetição, então eu deveria levantar em algum momento e voltar a sentar como a primeira vez, repetir a primeira história e depois continuar. As frases deveriam começar sempre com "Eu recordo". Então ficou assim a cena:

Eu pegava e colocava a cadeira de frente para o publico, fazia um gesto antes de sentar na cadeira com os dedos que iria se repetir outras vezes. Iniciava contando sobre o dia que aprendi a andar, falava sobre a textura do anel no dedo no meu pai onde eu me segurava... depois falava sobre memórias que me vinham sobre infância  e adolescência. Poderia interromper qualquer memória, me levantar e sentar outra vez. Toda vez que isso acontecia eu retomava a historia sobre aprender andar, porém continuando ela de onde havia parado. Eu deveria levantar 3 vezes da cadeira e na ultima vez, eu contava sobre a minha velhice e a minha morte. No final eu perguntava para a plateia: "E você, do que você se recorda?"

Depois disso chegamos no momento final. Juntar todas as cenas levantadas no dia e juntar com as do dia anterior. Para apresentar para Alencar relembrando e atualizando. Alencar aproveitou para filmar cada cena. 

Acredito que foi um dia bem produtivo. Cheguei em casa exausto, aproveitei para dormir cedo e descansar para estar pronto para o dia seguinte.

Homework: Repassar as cenas para apresenta-las no dia seguinte para toda a equipe que vai ao ensaio pela primeira vez.

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1° Dia - Saltar no escuro para encontrar o vazio.

Hoje (05/02/2018) conhecemos o espaço onde será realizado o processo. O estúdio de ensaio fica na Escola Porto Iracema das Artes, um lugar muito interessante para quem gosta de arte e difusão cultural. Vale a pena conhecer aqui vai o link: http://www.portoiracemadasartes.org.br/ 

Além de conhecer o espaço já iniciamos os trabalhos a partir das provocações do diretor. Após o aquecimento comigo e com David Alencar, convidado para participar como ator e registrar do processo, Francis nos propôs um exercício de improvisação a partir de alguns post-its com provocações. O tema escolhido para nosso trabalho é o TEMPO, em suas diversas facetas. 

Eu e Alencar improvisamos por cerca de uma hora, a duração de cada provocação era de 4 minutos cronometradas pelo diretor. Após isso, foram destacados por Francis, momentos para possíveis repetições.

Foram eles:

Ações/Imagens

Estalar os Dedos - Assoviar - Correr em círculos - Um homem perdido - Encolhido no canto da sala - 

Frases

"Esta é nossa ultima e única chance" (em cinco idiomas) 

"Sobrou apenas areia no meu peito"

"Quanto tempo passou? Devo continuar?" (Pergunta para a plateia)

"Tudo que preciso dizer está aqui" (descreve as coisas concretas da sala)

Música

Papa Don Ba lá - Cantando em fade in fade out - Silêncio, som das coisas.

A partir desses destaques fiz uma nova improvisação. Foram me dados 30 minutos para organizar este material e apresentar.

Após apresentar dentro dessas provocações a organização que propus o diretor, me pediu para repetir algumas coisas e fez as seguintes indicações:

A música "Papa don ba lá", deveria ser mais simples e singela como foi no improviso.

Quando falar "Tudo que preciso está aqui" deveria descrever as coisas concretas que encontrava na sala. Ex: Essa camisa de botões, essas frestas no chão, o pó, etc.

O Homem perdido é uma imagem forte que devemos apostar, ele pode em 2 minutos ter variadas intenções: expectativa - esperança - frustração - curiosidade.

Um homem perdido no seu século - Referência: Gonçalo M. Tavares.

Hoje tudo é feito para que o homem não perca seu tempo, porém estamos sempre perdidos no tempo interno.

As quedas são interessantes, podemos pensar em três níveis de quedas: 

1 - do alto (em cima de objetos)

2 - no chão

3 - queda interior

Encontrar diferentes maneiras de tropeçar e cair sem se machucar.

A frase "Essa é nossa ultima e única chance" tem que ser repetida nas diferentes línguas (alemão, inglês, espanhol, português, francês) 

O tempo poderia aparecer concretamente, ser uma medida real do espetáculo. Podemos projetar diferentes relógios com diferentes fusos nas paredes do teatro (Paris, Bogotá, Cazaquistão, etc.)

Podemos parar o cronometro e perguntar "Quanto tempo passou? Devo continuar?"

Tenho que tomar cuidado para não fazer over acting, segundo Francis tenho tendência a chegar a uma potência grande porém, em contra-mão iremos trabalhar o lugar do vazio, sem armas. Entre o teatro e o não teatro?

"Temos pouco tempo, que história posso contar?" - Talvez se contar uma história e não terminar e começar outra e não terminar, com pressa de contar, acabando por não contar nada.

Trabalhamos das 14 às 17:30  horas neste primeiro dia. Acredito que foi um dia produtivo, conseguimos levantar algumas possibilidades de material. Saltamos no escuro, sem saber no que iria acontecer, encontramos o que não fazer, encontramos o que podemos  utilizar, potencializar, melhorar. Fazia muito tempo que eu não era dirigido de uma forma tão intensa e de maneira exclusiva, portanto além de ser um grande desafio é uma grande oportunidade para crescer e aprender. Agora preciso encontrar o vazio. 

Homework:

10 ações/gestos com sons associados a história cronológica da humanidade.

Ler: "O torcicolologista , Exelência"  de Gonçalo M. Tavares - Pág. 11 à 28 - 64 a 67 - 152 a 156.

"Quando fui outro" Fernando Pessoa - Pág. 101 à 123.

"Antropologia Pessoal" - Jorge Luis Borges - Pág. 47 e 206

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